Imagens na bruma

Lugares poéticos, com espaços reais e narrativas sugeridas ou inventadas.

Ana Ruivo


Agrada-me a ideia de construção de um lugar poético onde se cruza o espaço real, percorrido por passos gestos e minutos, e um outro, invisível, marcado pelo pensamento e pela percepção de narrativas sugeridas ou inventadas numa espécie de jogo das escondidas com o não dito.

Nas imagens criadas por Rui Calçada Bastos existe quase sempre essa linha ténue onde a metáfora se descobre e em que se instaura, mais do que a dúvida (sobre a natureza do visto), a inquietiude do reconhecimento, a surpresa dos encontros, o desacerto dos enredos.

"Avalon" corresponde a esta ideia. Mais do que uma designação ou tentativa de proposição geográfica, trata se da recuperação de um conceito e do lugar mítico das tramas do ciclo Arturiano, de um território tão fantástico quanto enigmático, capaz de convocar a magia das tradições e ser sucessivamente reinventado pela literatura e artes visuais. Mas "Avalon" é aqui também um lugar de itinerários pessoais, melhor conseguido sempre que a construção das imagens se restringe ao essencial, estancando o tempo e potenciando o seu sentido.

No tríptico fotográfico que inicia o percurso, um coropo eleva se em suspensão. Não lhe vemos tronco ou rosto. Apenas pernas e pés enfiados em grandes e coloridas botas de borracha . Em baixo, uma poça de água enlameada. Na transgressão consentida pelo calçado aguça-se o desejo: o chapinhar na água a lembrar gestos de infância, as explosões incontidas de energia com ecos de Gene Kelly.

Apesar de repartido o salto, desdobrando o tempo em três fotografias, nunca se desfaz por completo a acção. Não vemos o arranque ou a poça estagnada depois da queda. Não sabemos sequer se corresponde a três momentos do mesmo salto. Apenas o movomento do corpo no ar, livre de constrições, e a tensão libertadora da queda. Tal como adiante, numa outra fotografia, sucede com o casaco preso ao tronco de uma árvore. Mas aí em Promisse, este outro adereço do corpo - casulo ou extensão desusada que o representa, apertado ao tronco como garrote de uma vida não cumprida, âncora da esperança em dias melhores - contorce-se na força aflitiva de uma prece que faz da natureza sua depositária. Uma espécie de projecção interior, encontrada e revista sob a lente do artista que se lhe acrescenta ao perspectivar o visto, prolongando a invisibilidade de um caminho no desalinho dos troncos da floresta. esse sentido é também  trabalhado ( encenado)  em A Video for a Photograph and a Photograph for a Video, peça constituida  por uma fotografia de grandes dimensões e um vídeo que passao ao lado num pequeno écrã, numa narrativa que se desenrola a dois tempos, entre a espera  (da figura femenina de costas na fotografia) e uma hipotética acção (lembrada, vivida, desejada), no diálogo entre suportes que questiona ainda a natureza das imagens  e o papel do espectador.

O desdobrar continuo  e desinquietante das imagens, mas sobretudo o impulso que a partir  dai se desencadea no espectador na tentativa de reorganizar a trama que as liga, tem sido uma das estratégias  melhor conseguidas no discurso de Rui Calçada Bastos. Em Walkabout, o espectador  é compelido a seguir os passos ambíguos de um (mesmo) percurso que se desenrola entre imagems, entre descobertas e memórias, visto e "dejá vu". Um caminhar contínuo pelas ruas do campo e da cidade, como quem refaz o fio do pensamento, como quem segue os trilhos de uma identidade em construção, como quem avança numa estrada que sempre começa.


Ana Ruivo in Expresso Cartaz 1781


Rui Calçada Bastos
works texts cv contact links
zittyDif Magazineartforum.com
Expresso CartazExit Express MagazineMil Folhas, PúblicoCross Magazine
Kevin PowerKevin PowerKatja AlbersDavid BarroKathrin BeckerKathrin BeckerDoris von DrathenSabrina va der LeyDiogo LopesDelfim Sardo