Francisco Vaz Fernández
Sob o título “Avalon”, Rui Calçada Bastos expõe
na galeria Vera Cortês um conjunto de trabalhos que evocam um tecido
ficcional. Dadas as características da galeria – um espaço
constituido por pequenas salas – o artista instala em cada uma trabalhos
isolado. São fotografias em diversos formatos, vídeos , objectos
e frases pintadas na parede. Ao percorrer o espaço procuramos uma vaga
correlação entre as diversas peças. A cada uma atribuímos índices
que nos fazem construir uma hipotética atmosfera narrativa. Nesse sentido,
a través desse estímulo narrativo o artista procura que o público
saiba resistir à “fetichisação” moderna do
objecto artístico como entidade autónoma e singularidade original.
Cedo somos conduzidos à ideia da ausência. A presença evocada
por cada elemento transportam-nos para a ausência de um outro. É um
fio interrompido que nos leva ao outro, daí queo carácter suspensivo
seja tão evidente na obra de Rui Calçada Bastos. A própria
natureza da fotografia enfatiza a ideia de tempo suspenso. É evidente
na imagem do aparenteimpasse de uma mulher de costas com uma mala pousada ao
lado, à frente de um aeroporto ou na tensão de um cão
no topo de uma pequena colina que de longe parece esperar ordens de acção.
O carácter suspensivo é aindamais enfatizado no enfoque dado
numa série de três fotografias de alguém que é apanhado
no ar enquanto completa um salto sobre um charco de agua.
A questão da ausência é ainda trabalhada, em trabalhos
com “I AM”, constituido por dois capuzes com rebordo em pêlo
pousados no chão com um aparelho que reproduz uma frase “I`m still
alive`. Na verdade, recria-se o que nos pode parecer duas pessoas face a face
numa comunicação muito estreita ou viejo. Este projecto asume
uma posição central nesta exposição. Instalado
numa sala propositadamente pintada de azul; joga com a sala seguinte igualmente
azul mas vazia. Passando de uma para outra, apenas pode ficar-nos o eco do
apelo feminino da sala anterior que aparece agora inscrita subtilmente na parede.
O mesmo capuz aparece numa sala seguinte com duas projecções
onde em cada uma dois seres deambulam pela cidade sem aparentemente nunca se
encontrarem. Para além dessas aberturas a esquemas narrativosimporta
ver esta obra a partir de uma estética da dualidade. Para confrontar
a sua obra com dois artistas que fundaram a sua obra a partir desteprocesso,
Felix Gonzalez Torres propôs uma estética da dualidade a partir
da simetría sincrónica e levou-a a um sentido utópico
de perfeição. Louise Bourgeois propôs, nos antípodas,
uma estética da dualidade a partir dos oopostos, inspirada numa ideia
de ordem universal comandada por uma reactividade de atracção
e repulsão. Rui Calçada Bastos propõe que a sua estética
da dualidade seja um aaspiração do outro, marcada por esse sentimento
de ausência. Nesse sentido, um sentimento melancólico atravessa
a sua obra, muito próximo do que pode ser encontrado em romances de
cavalariae, por que não, em toda a poesia galaico-portuguesa. É difícl
sar essas como referências única, elas são de natureza
heterogénea inerente a toda a produção cultural. Convocando
o passado, tanto como o presente, assumem a estrutura dialogante com as memórias
do público , com elas estabelecendo relações de complexidade
de diferentes graus.
Francisco Vaz Fernández in Dif Magazine
http://www.difmag.com/dif_44.pdf